O cenário da indústria juizforana para o ano de 2010 deverá ser diferente do vivido pelo setor no ano passado. Esta é a aposta de empresários e representantes de entidades, que se dizem otimistas e preveem investimentos e contratações ao longo do ano. Com pedidos em andamento e já com produção a todo vapor - em uma época caracterizada pelo ritmo fraco e férias coletivas - a expectativa da Fiemg Regional Zona da Mata (Fiemg) é de que a indústria local feche o ano com um crescimento de 7%, ficando acima da previsão do Ministério da Fazenda para o PIB nacional - de 5,2%. Um pouco menos otimista, mas também acima da expectativa nacional, o Centro Industrial trabalha com crescimento de 5,8% no setor.
Mesmo se concretizadas as previsões, no entanto, o resultado não será suficiente para repor as perdas do ano passado. Impactada pela crise financeira mundial, que eclodiu em 2008, mas teve reflexos ao longo da produção de 2009, a indústria local amargou queda de 15% em seu desempenho, segundo levantamento da Fiemg. Segundo o presidente regional da instituição, Francisco Campolina, o principal impacto no setor foi sentido pelas empresas exportadoras. Elas movimentaram, ao longo do ano, R$ 754,6 milhões em negócios, contra R$ 1,4 bilhão em 2008, uma redução de 45%.
De acordo com dados da Receita Estadual referentes à arrecadação de ICMS da Delegacia Regional em 2009, houve uma queda de 8,1%, na comparação com o ano anterior. No estado, a redução foi de 1,84% no mesmo período. Entre as atividades industriais locais, a principal responsável por puxar a queda foi a siderurgia, que amargou redução de 53% na arrecadação do ano passado ante 2008. O setor de autopeças e veículos também teve queda considerável, de 10%, juntamente com o de material de construção e ferramentas, com redução de 9,3% no mesmo período.
A previsão de crescimento para o ano, segundo Campolina, tem como base o volume de pedidos feitos à indústria já no início de janeiro, fenômeno não ocorria na cidade há pelo menos quatro anos. “Hoje, em janeiro, a produção está tão grande quanto no mês de dezembro. O comércio vendeu bem e já está pedindo reposição de mercadorias. Já começamos o ano vendendo e faturando, o que não ocorria há muito tempo.” A maior parte das fábricas, segundo ele, está operando com cerca de 85% de sua capacidade.
Escassez de mão de obra
Ainda de acordo com o presidente regional da Fiemg, o fenômeno já reflete em escassez de mão de obra no mercado, sobretudo no setor de confecções e construção civil. O maior volume de postos pode ser comprovado pelas vagas oferecidas pelo Sistema Nacional de Emprego (Sine) em Juiz de Fora. Há um mês eram ofertados 61 postos de trabalho no órgão. Na última semana, havia 167 oportunidades disponíveis, volume quase três vezes maior.
Para o presidente do Centro Industrial de Juiz de Fora, Aurélio Marangon, o crescimento industrial no ano deverá ser influenciado pela previsão de ampliação do consumo familiar em 6% este ano, pelo fato de 2010 ser um ano eleitoral e também pelo decreto assinado no ano passado, que concede benefícios fiscais e tributários a empresas interessadas em se instalar no estado. “Estamos muito otimistas. A construção civil será bem fortalecida com o programa ‘Minha casa, minha vida’ e esperamos receber mais empresas com o novo decreto. Mas a grande expectativa é quanto ao funcionamento do Aeroporto Regional, que poderá, efetivamente, fomentar em muito o crescimento da indústria da região.”
Aquecida ao longo de 2009, a construção civil não chegou a sofrer o impacto da crise financeira e espera um crescimento cerca de 1,5% acima do PIB. Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Construção Civil (Sinduscon), Leomar Delgado, o setor não terá “sobressaltos”. “A construção civil vem crescendo num ritmo forte e não estamos esperando nada muito surpreendente.”
Mais de 60% irão investir em 2010
No país, o cenário também é de otimismo na indústria. Segundo pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), 61,8% das empresas pretendem investir mais este ano. Do total, 52,9% pretendem comprar mais máquinas e equipamentos e 8,9% dizem que vão aumentar muito os investimentos.
Para o gerente-executivo da Unidade de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, o investimento foi a variável mais afetada pela crise financeira internacional em 2009. No entanto, para 2010, os dados são positivos, e as empresas já sinalizam intenção de investir.
Ainda conforme o levantamento, 46,3% das empresas realizaram os investimentos planejados para 2009, enquanto 49,8% executaram parcialmente os investimentos. Entre as principais razões para a retenção dos aportes previstos estava a incerteza econômica.
Na Medquímica, as obras de construção de uma nova planta foram suspensas após a eclosão da crise, mas a previsão, para este ano, é de retomada da construção. Segundo o gerente administrativo e financeiro da indústria, Evandro Rodrigues, a meta do último ano não foi atingida, principalmente por conta da retração do mercado e da variação cambial, já que 70% das matérias-primas são importadas. Para 2010, segundo ele, a previsão é aumentar em 15% a produção. “Ainda estamos aguardando autorizações da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o que poderá ampliar a expectativa inicial.” Ainda conforme Rodrigues, a fábrica está retomando as obras de uma nova planta, suspensa após a eclosão da crise.
Retomada e mais investimentos
Nas fábricas, a produção já segue em ritmo acelerado, e os orçamentos sinalizam crescimento de até 20%. Na siderurgia, um dos setores mais afetados pela crise mundial, a expectativa é de que a situação seja normalizada, e a estimativa é de geração de postos de trabalho. Segundo o gerente de Recursos Humanos e Qualidade da ArcelorMittal, Ricardo Schmidt, a perspectiva é ampliar em 11% a produção no ano. “Em 2009, produzimos 871 mil toneladas e produtos laminados e, para o orçamento deste ano, estamos calculando 997 mil toneladas.” Apesar de reconhecer que o montante não será suficiente para anular as perdas de 2009, o gerente destaca que os números ficarão muito próximos dos de 2008, ano em que a produção da unidade alcançou pico. “Os pedidos tiveram início, e a previsão é de que o ritmo se intensifique a partir do próximo mês.”
Em um segmento que pouco sentiu o impacto da crise, a Esdeva Indústria Gráfica pretende aumentar em 25% sua capacidade de impressão ainda no primeiro semestre, com a aquisição de nova rotativa. O equipamento alemão imprime 84 páginas em formato revista e deve chegar no final de fevereiro. “O ano passado não foi ruim, e as perspectivas para 2010 são muito boas”, revela o diretor comercial, financeiro e de operações, André Neves, que confirma o movimento atípico de janeiro e projeta crescimento de 8% a 10%. É esperado aumento de 5% no quadro.
Abaixo da meta
Na indústria de telhas ecológicas Onduline, a projeção é de ampliação de 20% na comparação com o volume produzido no ano passado. “O resultado de 2009 foi bom em relação ao mercado interno, mas nossas exportações caíram 40%, o que fez o ano fechar abaixo da meta”, afirma o diretor da empresa, Ricardo Bressiani.
Na Paraibuna Embalagens, o desempenho negativo até o terceiro trimestre foi compensado com a aceleração da produção nos últimos meses de 2009. Para este ano, a perspectiva é de crescimento de 5%. “Este percentual pode variar em função do crescimento do Produto Interno Bruto ao longo do ano”, espera a gerente de suprimentos, Denise Peter.
A Votorantim Metais não aponta números, mas, por nota, informa estar “atenta às perspectivas de aquecimento do mercado, para realizar eventuais ajustes no processo de produção”. Já a Mercedes diz aguardar o planejamento de 2010 para se pronunciar.
Fonte: Tribuna de Minas - Flávia Lopes